A violência contra a mulher raramente se apresenta da forma como fomos ensinados a reconhecer. Ela não costuma vir acompanhada de sinais evidentes, nem se restringe a contextos socialmente marginalizados ou a perfis que fogem à norma. Pelo contrário: muitas vezes, ela se instala em espaços considerados seguros, respeitáveis e até idealizados. É justamente essa característica que a torna tão difícil de ser nomeada, interrompida e combatida.

O agressor pode estar na igreja, na academia, no ambiente de trabalho, em fotos sorridentes com os filhos ou em encontros informais com amigos. Assim, a violência contra a mulher não se sustenta apenas pelo ato agressivo em si, mas também pela normalização social que o envolve, protege e silencia.


Quando acordei e a violência já estava no meu feed

Acordei no dia 01 de janeiro, ainda atravessada pelo clima simbólico da virada de ano. Havia um resto de esperança no ar, aquela sensação coletiva de que algo novo poderia começar melhor. No entanto, ao abrir o celular, a primeira notícia que apareceu no meu feed foi a de uma médica brutalmente espancada na virada do ano.

Na realidade, não era apenas no meu feed. A notícia estava em todos os lugares. Portais, grupos de mensagens, conversas paralelas. A cidade estava estarrecida. E, enquanto eu tentava compreender o que estava lendo, algo me atravessou com força: aquela violência não correspondia ao estereótipo que, socialmente, ainda insistimos em usar para explicar a violência doméstica.

Durante muito tempo, construiu-se a ideia de que a violência contra a mulher seria um problema restrito a contextos de baixa renda, pouca escolaridade ou “desorganização social”. No entanto, ali estava um caso envolvendo pessoas de classe média, com formação acadêmica, inserção profissional e reconhecimento social. O choque não deveria existir — mas existe, porque os estereótipos ainda funcionam como mecanismos de negação coletiva.


Violência contra a mulher além do imaginário social

A violência contra a mulher não costuma ser explícita. Na maioria das vezes, ela não vem anunciada em gritos públicos ou em gestos grandiosos. Ela se infiltra no cotidiano, nas relações íntimas, nos vínculos afetivos e nas dinâmicas de poder silenciosas.

Em um país onde mulheres levaram séculos para conquistar direitos mínimos, é inevitável reconhecer que praticamente todas serão atravessadas, em algum momento da vida, por algum tipo de violência. E não apenas a violência física, mas também a psicológica, simbólica, institucional e relacional. Essa estrutura não é acidental. Ela é histórica, cultural e segue operando diariamente.


O Réveillon, a fantasia do recomeço e o choque com a realidade

Há um elemento simbólico que torna esse episódio ainda mais perturbador: a agressão aconteceu na madrugada do Réveillon. Um momento socialmente associado à esperança, à renovação e à suspensão simbólica do medo. É quando desejamos que o novo ano traga leveza, reparação e futuro.

E, então, amanhece. E a violência contra a mulher se impõe com brutalidade. O horror interrompe o ritual de esperança e nos obriga a lembrar que a violência não respeita datas, promessas ou transições simbólicas. A partir desse ponto, não se trata apenas da investigação de um crime, mas do desvelamento de tudo o que já estava em curso, silencioso, antes mesmo dos fogos.


A espetacularização da violência e o adoecimento coletivo

Diante de casos extremos de violência contra a mulher, observa-se um movimento recorrente: imagens são compartilhadas compulsivamente, vídeos circulam sem qualquer cuidado ético e o sofrimento feminino passa a ser consumido como espetáculo.

Inserida em uma lógica capitalista de lucro, a mídia frequentemente transforma a violência em produto. O sofrimento é exibido, repetido e explorado, enquanto respostas estruturais seguem ausentes. Como resultado, a indignação coletiva tende a se esgotar em frases como “tem que apodrecer na cadeia”, que expressam raiva legítima, mas não produzem transformação real.

Embora o desejo por justiça seja compreensível, ele não pode se restringir à punição individual. Quando o foco permanece apenas no agressor isolado, o sistema que sustenta a violência contra a mulher permanece intacto e intocado.


Violência contra a mulher como expressão estrutural

A violência contra a mulher não é um desvio individual nem um “caso isolado”. Ela é produzida dentro de um sistema que hierarquiza corpos, precariza vidas e naturaliza desigualdades. O mesmo sistema que normaliza a violência doméstica é aquele que autoriza a morte de pessoas negras e pobres, a negação de direitos à população LGBTQIAPN+ e a exploração contínua de territórios periféricos.

Portanto, não se trata de coincidência, mas de coerência estrutural. Os corpos violentados seguem uma lógica comum: são aqueles considerados descartáveis. Mesmo quem se reconhece politicamente ao lado dos oprimidos não está fora dessa engrenagem. A violência atravessa lares, amizades, famílias e círculos sociais próximos.


A inércia masculina como forma de cumplicidade

Um dos pilares mais silenciosos da violência doméstica é a inércia masculina. Muitos homens não praticam diretamente a agressão, mas a sustentam por meio do silêncio, da omissão e da relativização. Essa inércia não é neutra. Ela é um mecanismo ativo de manutenção da violência contra a mulher.

Entre os fatores que explicam esse comportamento estão a lealdade de gênero, o medo do confronto social, a normalização de comportamentos abusivos e uma hierarquia de valores que preserva vínculos masculinos em detrimento da vida e da dignidade das mulheres.

Quando a violência é tratada como “problema do casal” ou “momento de raiva”, ela é despolitizada, e a vítima é isolada.


Responsabilidade cultural e o chamado ético

A literatura e a arte vêm denunciando essa lógica há décadas. Um exemplo potente aparece na série Anne with an E, quando uma carta lida pela personagem explicita que às mulheres é exigido silêncio, enquanto aos homens é concedida impunidade.

“É permitido aos homens agir impunemente, comportar-se de forma irresponsável e saciar seus desejos. E é esperado que nós, mulheres, suportemos tudo isso em silêncio, para manter nossa honra e nossas perspectivas de futuro. Quando nos manifestamos, somos rotuladas de histéricas, difíceis ou mal-educadas. Nossos direitos só são reconhecidos quando estamos associadas a homens — como mães, esposas, filhas ou irmãs. Por que não temos os mesmos direitos humanos concedidos aos homens no momento em que nascem? Isso não é uma condenação generalizada dos homens. É um chamado à ação. É hora de eles decidirem se caminharão ao nosso lado, como parceiros na luta por justiça e igualdade. Há espaço para eles nessa luta. Se recusarem, teremos de seguir adiante sem eles, enquanto construímos um mundo melhor.”

Esse trecho explicita algo central: não se trata de demonizar homens, mas de convocá-los à responsabilidade. A neutralidade, nesse contexto, não é isenção. É posicionamento.


Vergonha ética como limite necessário

Sentir vergonha de manter vínculos com homens violentos não é excesso moral. É limite ético. A vergonha, quando fundamentada em valores, atua como regulador social. Ela define o que não pode ser tolerado.

A violência contra a mulher não é descontrole emocional. É exercício de poder, aprendido, reforçado e sustentado pela impunidade social. Quando homens se calam, falham com as vítimas e reforçam modelos de masculinidade que também os aprisionam.


Romper o silêncio é responsabilidade coletiva

A luta contra a violência contra a mulher exige mais do que indignação pontual. Exige enfrentamento estrutural, revisão de vínculos, responsabilização cotidiana e compromisso ético contínuo.

Enquanto houver silêncio, haverá violência. Rompê-lo é uma responsabilidade coletiva, política e profundamente humana.

Nota cultural: Trecho adaptado da série Anne with an “E” (Netflix), utilizado aqui como referência artística e reflexiva sobre desigualdade de gênero.

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