A dor emocional e dor física no luto não chegam de forma organizada. Elas se impõem. Às vezes, surgem como um nó na garganta que não desce; outras vezes, como um peso no peito, uma exaustão corporal sem nome ou uma angústia que atravessa o dia inteiro. Quando alguém que amamos morre, o mundo não para. E talvez essa seja uma das experiências mais duras do luto: perceber que, mesmo devastados, ainda precisamos continuar funcionando.

Há duas semanas, perdi minha avó. E só agora consegui, minimamente, colocar foco nesse nó que ficou. No dia da notícia, passamos horas mergulhados em uma angústia silenciosa, como se algo estivesse errado no ar. Ao final da noite, veio a confirmação. A pior das notícias. E, a partir dali, iniciou-se um turbilhão de emoções contraditórias que costumam acompanhar o luto: vontade de chorar, sensação de irrealidade e, ao mesmo tempo, a necessidade imediata de resolver questões práticas.

As dores do luto não são experiências separadas. Enquanto a mente tenta compreender a perda, o corpo já está reagindo. O sono não vem. O estômago fecha. A respiração fica curta. O cansaço se instala mesmo sem esforço físico.

Além disso, o luto ativa um estado de alerta constante. O corpo percebe que algo fundamental foi rompido. Por isso, não é raro que a dor emocional se manifeste fisicamente: dores musculares, tensão no pescoço, aperto no peito, náuseas ou uma fadiga profunda. Tudo isso faz parte do processo, ainda que muitas vezes seja assustador vivenciar essas reações sem entender o que está acontecendo.

Entre o choro e a burocracia: a frieza do morrer

Uma das experiências mais duras é o contraste entre a perda afetiva e a frieza dos procedimentos que se seguem à morte. Enquanto o coração pede silêncio, recolhimento e lágrimas, a realidade exige documentos, decisões e respostas rápidas.

É preciso organizar papéis, buscar certidões, entender detalhes sobre planos, escolhas e registros que, muitas vezes, a pessoa falecida ainda não queria ou não teve tempo de compartilhar.

Tudo acontece rápido demais. Não há espaço emocional suficiente para digerir o que aconteceu, porque o mundo burocrático não espera.

E, enquanto isso, a dor continua ali, pulsando, mesmo quando precisamos ser racionais, objetivos e funcionais.

A noite mal dormida e o dia interminável

Após a notícia, veio uma noite inteira mal dormida. O corpo deitado, mas a mente em vigília. Pensamentos que se repetem, imagens que retornam, perguntas sem resposta. E, então, o amanhecer de um dia que já se sabia que seria longo demais.

O cansaço se soma à tristeza. A angústia se mistura com a necessidade de seguir. Não há pausa real. Não há tempo suficiente para sentir antes de agir. E se intensificam nesses momento.

O velório é um espaço onde a dor se multiplica. Não apenas a própria, mas a dor dos outros. Olhares marejados, silêncios constrangidos, abraços que tentam dizer aquilo que não encontra palavras.

Nesse ambiente, a dor se tornam coletiva. Cada pessoa reage de uma forma: alguns choram muito, outros ficam paralisados, outros tentam manter a compostura.

Nenhuma dessas respostas está errada. Todas são tentativas legítimas de lidar com algo que ultrapassa a capacidade humana de compreensão imediata.

No enterro, escolhi ficar no carro. Não consegui acompanhar o último adeus. Permaneci cuidando de uma tia que estava pior do que eu. E isso também é luto. Às vezes, não conseguimos olhar diretamente para a perda. Às vezes, o cuidado com o outro é a forma possível de atravessar aquele momento.

Não existe uma forma certa de se despedir. Há apenas aquilo que é possível naquele instante.

A funcionalidade exigida em meio à dor

Mesmo depois do velório e do enterro, a exigência de funcionamento continua. Existem prazos, multas, e obrigações legais que precisam ser cumpridas em poucos dias, como a certidão de óbito. A vida prática não reconhece o estado de luto.

E isso é brutal. Porque tudo é muito duro. Muito pesado. O corpo pede pausa, mas o sistema exige produtividade. A mente pede silêncio, mas o mundo pede decisões.

Nesse ponto, as emoções se misturam à sensação de injustiça: como é possível que, diante da morte, ainda sejamos cobrados por eficiência?

O morrer é frio. Protocolar. Rápido. Já o luto é lento, confuso e profundamente humano. Quem fica precisa aprender a conviver com essa discrepância.

Precisa encontrar pequenas brechas para sentir, mesmo quando tudo ao redor exige funcionamento.

Reconhecer a dor emocional e dor física no luto é um ato de cuidado consigo. Não se trata de romantizar a perda, mas de legitimar o impacto que ela tem no corpo, na mente e na vida cotidiana.

O luto não pede permissão. Ele chega, atravessa e transforma. Ainda assim, seguimos. Organizamos documentos. Cumprimos prazos. Cuidamos de outras pessoas. E isso não significa que estamos bem. Significa apenas que estamos fazendo o possível.

Se há algo importante a ser lembrado, é que o luto não precisa ser vivido com pressa. Mesmo quando a vida exige funcionamento, o sentir pode — e deve — encontrar espaço. Com tempo, com gentileza e com muito respeito pela própria dor.

Talvez o maior gesto de cuidado, em meio a tudo isso, seja reconhecer: está pesado porque é pesado.

E tempo para atravessar.

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